Por que você deveria parar de comprar Fundos Imobiliários
Nos últimos meses, tem aumentado o número de investidores insatisfeitos com os Fundos Imobiliários (FIIs), e o motivo principal é a desvalorização da maioria dos fundos, com quedas superiores a 10% em alguns casos. Mas será que ainda faz sentido dedicar parte dos aportes a essa classe de ativos?
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Neste artigo, quero explorar por que muitos investidores deveriam repensar a presença dos FIIs em suas carteiras. Antes disso, é essencial entender como essa classe de investimento se tornou tão popular no Brasil.
A Ascensão dos FIIs no Brasil
Desde os anos 2000, o perfil do investidor brasileiro foi marcado pelo rentismo. Isso se deu, principalmente, devido à combinação de uma alta taxa de juros histórica e a baixa acessibilidade e conhecimento sobre o mercado de capitais. Entre 2000 e 2017, por exemplo, os juros permaneceram grande parte do tempo acima de 10% ao ano.
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Nos últimos 10 anos, a taxa real de juros no Brasil ficou, na grande parte do tempo, acima dos 5% ao ano. Essa rentabilidade era suficiente para atrair investidores aos títulos de renda fixa do tesouro ou privados de grandes instituições, sem a necessidade de buscar alternativas mais arriscadas.
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A partir de 2017, entretanto, o cenário começou a mudar. A taxa Selic iniciou um ciclo de cortes, atingindo 6,5% ao ano no início de 2018, e, posteriormente, de 4,5% ao final de 2019. Essa mudança forçou os investidores a procurar ativos que oferecessem retornos mais atrativos, levando o público a explorar mais o mercado de ações e fundos imobiliários.
Entre 2018 e 2019, o número de investidores pessoas físicas na bolsa dobrou. Nesse período, tanto o Ibovespa quanto o IFIX (índice dos fundos imobiliários) registraram altas expressivas. Em 2019, por exemplo, o IFIX subiu impressionantes 35%. Além disso, duas características específicas levaram ao boom de popularidade dos FIIs: o pagamento mensal (quase previsível) de rendimentos e a isenção de imposto de renda sobre esses rendimentos.
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Apesar do crescente interesse, muitos investidores ingressaram nesse mercado com uma compreensão limitada da dinâmica dos FIIs. Na época, surgiram apelidos como “Renda Fixa 2.0”, e alguns até recomendavam os FIIs como reserva de emergência.
Essa percepção distorcida levou muitos a enxergar os FIIs como um substituto aprimorado da renda fixa, ignorando que, na realidade, eles pertencem à categoria de renda variável. Assim como as ações, os FIIs estão sujeitos à volatilidade do mercado, e suas cotações oscilam em resposta a ciclos econômicos e expectativas de juros futuros.
A Relação Entre Juros e FIIs
Os preços dos FIIs possuem uma relação inversa com as taxas de juros futuras. Se o mercado acredita que os juros subirão, as cotações dos FIIs tendem a cair — e o oposto também é verdadeiro. Para entender porque essa dinâmica acontece, considere o seguinte exemplo:
Imagine que você deseja comprar um apartamento de R$ 500 mil para obter uma renda de aluguel. Com base nos aluguéis da região, o retorno anual seria de R$ 30 mil, equivalente a 6% ao ano. Antes de fechar o negócio, você compara essa opção com um título público que oferece R$ 35 mil anuais, corrigidos pela inflação, ou seja, 7% ao ano de retorno real.
Neste cenário, investir no imóvel faz sentido? Não. Afinal, o risco do imóvel é maior devido à possibilidade de inadimplência, custos de manutenção e outros fatores. Para justificar o investimento, seria necessário ou reduzir o preço de compra do imóvel, ou aumentar o valor do aluguel — sendo a primeira opção a mais viável.
Essa lógica se aplica aos FIIs. Quando os títulos públicos oferecem retornos mais altos, o preço dos FIIs tende a cair para tornar seu rendimento proporcionalmente atrativo.
FIIs: Para Quem Faz Sentido?
Investir em FIIs exige um entendimento claro de sua natureza e de seus riscos. Se você:
- Não está disposto a lidar com oscilações diárias de preços;
- Não acredita no investimento imobiliário;
- Busca superar o CDI consistentemente no curto prazo;
… então, provavelmente, os FIIs não são para você e o ideal seria você parar de investir nessa categoria.
Por outro lado, se você possui um foco no longo prazo, valoriza a renda passiva e entende que as oscilações de mercado podem representar oportunidades, os FIIs podem ser uma excelente alternativa.
Oportunidade Atual nos FIIs
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Atualmente, muitos fundos imobiliários de tijolo estão oferecendo rendimentos significativamente acima da média do mercado. Em alguns casos, o dividend yield está próximo ou superando a marca de 10% ao ano, um patamar comparável ao observado durante a pandemia. No entanto, diferentemente daquele período, hoje os níveis de vacância e inadimplência estão melhores, com muitos fundos superando seus valores patrimoniais daquela época.
Em contraste, o mercado imobiliário tradicional apresenta um rendimento médio de aluguel de apenas 0,5% ao mês, significativamente inferior aos retornos dos FIIs. Isso reflete uma das principais vantagens do ambiente de bolsa: maior liquidez, rendimentos e oportunidades criadas pela especulação e falta de conhecimento de muitos investidores.
Se você já possui FIIs na sua carteira, este pode ser um momento oportuno para reforçar suas posições. Para quem ainda não investe e tem interesse em construir uma renda passiva robusta, vale a pena refletir se essa classe de ativos está alinhada ao seu perfil e momento de vida..